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domingo, 4 de novembro de 2012

Sugestão de leitura do mês de novembro

“Cada um vê o que quer… num molho de couves” de Isabel Abecassis Empis é a sugestão de leitura do mês de novembro.

Neste livro a psicóloga clínica questiona o percurso tradicional da terapêutica psicanalítica e propõe uma nova abordagem da comunicação entre terapeuta e paciente.

Aqui fica um excerto que poderá entusiasmar os nossos leitores:

«Esta coisa da tristeza versus depressão faz-me pensar numa criança que nunca esquecerei. Uma menina de sete anos é-me trazida pela mãe a conselho da professora. Dizia esta que a criança era muito reservada, pouco participativa, mas extraordinariamente atenta. No entanto, quando os colegas tinham um conflito uns com os outros, aí era ela que ocorria a consertar as coisas entre os “zangados” e a repor a harmonia. Notava a professora que esta situação se repetia com alguma frequência e que era estranho porque aí a Sofia saía da sua reserva e falava assertivamente, com autoridade, com ambas as partes, acabando com a adversidade. Foi então informada de que a iam levar a uma psicóloga por ser demasiado calada e por a mãe e a professora se interrogarem se ela estaria preocupada ou triste com alguma coisa. Conta-me a mãe que, ao sair do banho, na véspera da consulta, fitando-a com um sorriso tranquilo e uma voz calma lhe disse: “Mãe, não me tirem a minha tristeza; eu preciso dela.”

Lembro-me bem da cara da Sofia, embora não tenha voltado a vê-la: olhar profundo e atento numa pele escura, com um enorme e doce sorriso tranquilo. Penso ter percebido o que a Sofia queria dizer. A sua capacidade de sentir as coisas era-lhe precisa. Não queria que lha tirassem era por aí que se realizava e agia naquilo que era o seu pelouro. Se os adultos precisavam de chamar àquilo tristeza, tudo bem… Mas, “por favor”, não me tirem o que é o meu “enriquecimento” – era, na realidade, o que ela estava a pedir.»




quinta-feira, 15 de março de 2012

"A única coisa em comum é o amor".



Sinopse:


“Babies” é um documentário francês de 2010, de 79 minutos, realizado por Thomas Balmès e produzido por Alain Chabat que segue durante um ano a história de 4 bebés, desde o seu nascimento. Estas crianças são oriundas da Mongólia (Bayar), Japão (Mari), Namíbia (Ponijao) e EUA (Hattie)."


Crítica:


Tivemos a oportunidade de visualizar e discutir o documentário “The Babies”, no contexto das disciplinas de Filosofia e Formação Cívica. O filme, diretamente relacionado com o tema “Valores e Cultura”, permite-nos explorar o território das atitudes possíveis em relação à diversidade cultural.




Quatro bebés muito especiais...


Ponjiao (Namíbia): nasceu numa tribo, e talvez dos quatro bebés é aquele que mais distante está do modo de vida ocidental. Desde pequeno contacta com outros familiares da tribo, assim como outros seres vivos durante a sua descoberta do mundo.

Bayarjargal ( Mongólia): vive numa tenda, já com alguns sinais de modernização. Dos quatro bebés é aquele que mais tempo passa sozinho, não por desinteresse parental, mas em nome de uma autonomia que, segundo a tradição da Mongólia, deve ser conquistada desde muito cedo.


Mari (Japão): vive num aglomerado urbano muito denso, estando em contacto desde pequena com sinais de desenvolvimento: arranha-céus, centros comerciais, brinquedos, tecnologia…Raramente está em contacto com a natureza.


Hattie (EUA): o seu modo de vida era semelhante ao de Mari e a única das quatro crianças a estabelecer um vínculo especial com o pai. Muito sensível e temperamental, por comparação com as crianças dos países menos desenvolvidos.


Do reconhecimento da diversidade à identificação de universais humanos…


Se viajar é comparar, este documentário proporciona-nos uma viagem por três continentes e quatro países e confronta-nos com uma diversidade de maneiras de pensar, sentir e agir, que caracterizam e concedem especificidade aos elementos de uma cultura, distinguindo-os das restantes. São diversas as formas encontradas pelas diferentes sociedades para melhor satisfazer as necessidades e os desejos humanos. Apesar das diferenças detetadas no momento do nascimento e no decorrer do processo de socialização, todas as crianças têm algo em comum. Todas têm o amor de uma família.
Se viajar é comparar é também ser capaz de assumir que “ser diferente não é o problema, o problema é acreditar que a nossa diferença é melhor que a dos outros”.


Por fim, uma lição de vida…


Todos amam. É esta a mensagem que o documentário francês pretende transmitir ao espectador, ao seguir o primeiro ano de vida de quatro crianças, “todas diferentes, todas iguais”.
Não incomodando o espetador com narração e fazendo com que este se concentre totalmente nas crianças, este filme consegue ser uma lição de vida para aqueles que torcem o nariz a outras culturas e se consideram culturalmente superiores. Para os racistas. Para os xenófobos. Para os chauvinistas. Este é um filme para todos nós.

10ºF






quinta-feira, 1 de março de 2012

Este post é dedicado aos alunos de Psicologia 12º ano, que no dia 25 de fevereiro assinalaram o 68º aniversário de António Damásio.
«Por que é que se dedicou ao estudo do cérebro? Foi por causa de livros que leu ou houve algum professor que o fez apaixonar-se pelo tema?
Foi uma combinação de factores. Um prende-se com o meu interesse pelos mecanismos e com a curiosa transição que me fez passar dos mecanismos dos motores — que eram a minha paixão quando tinha dez anos — para os mecanismos da mente. Não faço ideia nenhuma da maneira de como isso aconteceu, mas sei que a certa altura — devia eu ter à volta de 15 anos —, ainda sem pensar de todo no cérebro, fiquei obcecado pelos mecanismos mentais. E achava que, para abordar essas questões — aí a influência foi com certeza literária —, teria de me tornar escritor ou cineasta. Isso fazia sentido, visto que também tinha uma grande paixão pela literatura e pelo cinema. Mas depois, no liceu — em Portugal —, tive como professor um filósofo chamado Joel Serrão. Era um professor magnífico — ensinava História e Filosofia — e eu de vez em quando conversava com ele. Um dia, falei-lhe do que queria fazer e disse-lhe que estava a tentar decidir se ia escolher a via literária ou científica no liceu. Ele ouviu-me e respondeu: “O que tu queres ser é neurologista.” “Ah, disse eu, neurologista. E porquê?" "A questão é que vieram daí uma quantidade de textos que ele achou que eu devia ler e, em particular, a recomendação de ler um livro do Egas Moniz. Tudo isto aconteceu, lembro-me muito bem, quando eu tinha 16 anos — e, depois de ter pensado bastante no assunto, decidi que ia para Medicina e que ia ser neurologista. Era a via natural. Foi uma decisão que nunca se alterou. Quando entrei para a faculdade, lembro-me de que as pessoas me diziam: “Não vais nada ser neurologista, vais ser cirurgião plástico.” “Veremos”, respondia eu. E acabei mesmo por me tornar neurologista. Claro que fui ficando cada vez mais contente com a minha escolha, porque de facto correspondia totalmente àquilo que me interessava.»
Foto: Pedro Cunha

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Dentro do cérebro: uma viagem interativa

Clique: http://www.alz.org/brain_portuguese/ e prepare-se para iniciar uma fantástica viagem dentro do cérebro humano. Aqui encontrará 16 slides interativos que explicam o funcionamento do cérebro e como a doença de Alzheimer o afeta.

"O Homem que confundiu a mulher com um chapéu" de Oliver Sacks

Eis um pequeno excerto desta obra, lançada em 1985, e que reúne múltiplas histórias de casos verdadeiros de patologias neurológicas. Este livro acompanha a luta de doentes com esquizofrenia, a doença de Alzheimer, síndrome de Tourett, autismo, entre outras doenças de natureza neurológica.

«(...)O Dr. P. era um músico distinto, muito conhecido por ter sido cantor durante bastantes anos e por, mais tarde, ter começado a ensinar na escola de música local. Foi aí, em relação aos seus alunos, que se reparou pela primeira vez em alguns dos seus estranhos problemas. Às vezes, quando um aluno intervinha nas aulas ele não o reconhecia, mais exactamente, não reconhecia o seu rosto. Assim que o aluno começava a falar o Dr. P. reconhecia-o pela voz. Estes incidentes tornaram-se cada vez mais frequentes causando vergonha, perplexidade, medo e por vezes situações cómicas porque o professor não só não reconhecia os rostos como os via onde eles não existiam. Como se fosse um pitosga a passear na rua, fazia festas nas bocas de incêndio e nos taxímetros convencido de que estava a acariciar crianças, dirigia-se educadamente aos candeeiros, e ficava muito admirado por não receber resposta. (...)»

Quem é Oliver Sacks?

«O médico e escritor inglês Oliver Sacks nasceu em 1933, em Londres, sendo filho de um casal de físicos. Formou-se como médico em Oxford e no início da década de 60 mudou-se para os Estados Unidos da América. Neste país estudou em regime de internato em São Francisco e, posteriormente, frequentou neurologia na Universidade da Califórnia em Los Angeles. Em 1965 foi viver para Nova Iorque, onde se tornou professor de neurologia na Escola de Medicina Albert Einstein, professor assistente de neurologia na Escola de Medicina da Universidade de Nova Iorque e consultor de neurologia numa instituição de caridade.
Em 1966 começou a trabalhar, também como neurologista, no Hospital Berth Abraham, no Bronx, em Nova Iorque. Aqui lidou com um grupo de doentes, que se caracterizavam por estar décadas num estado catatónico, incapazes de fazer qualquer tipo de movimento. Constatou que esses doentes eram os sobreviventes de uma grande epidemia da doença do sono que assolou o mundo entre 1916 e 1927. Tratou-os então com um medicamento novo, o L-dopa, que permitiu que eles regressassem a uma vida normal. Este caso inspirou-o a escrever em 1973 o livro Awakenings, a sua segunda obra literária, que viria a servir de inspiração a Harold Pinter para escrever a peça de teatro A Kind of Alaska e à realizadora Penny Marshall a fazer o filme Despertares. Este filme, estreado em 1990, tinha como actores principais Robin Williams, no papel de Sacks, e Robert De Niro.
Mas ainda antes deste filme estrear, Sacks tinha-se tornado conhecido, especialmente nos Estados Unidos da América, com o livro The Man Who Mistook His Wife for a Hat (O Homem que confundiu a mulher com um chapéu). Esta obra, lançada em 1985, era uma colecção de histórias de casos verdadeiros nos limites das experiências neurológicas. Tratava-se do relato de histórias da luta de doentes com a esquizofrenia, a doença de Parkinson, a doença de Alzheimer, síndrome de Tourett, autismo, etc. Em 1989 Oliver Sacks foi distinguido pela Fundação Guggenheim pelo seu trabalho na área por ele designada de neuroantropologia da Síndroma de Tourette, na qual os doentes têm tiques involuntários. O estudo analisa, nomeadamente, o modo como era percepcionada a doença em diferentes culturas.
Os seus livros, escritos desde 1970 e traduzidos para mais de vinte línguas, tornaram-se campeões de vendas e ganharam diversos prémios em todo o mundo, sendo utilizados em aulas nas universidades. Inspiraram também artistas de diversas áreas culturais. Mas Sacks notabilizou-se também pelos seus escritos na Imprensa, tanto generalista como especializada em medicina.
Oliver Sacks é membro honorário da Academia Americana de Artes e Letras, da Academia Americana de Artes e Ciências e da Academia das Ciências de Nova Iorque.»

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O perigo de não dormir o suficiente.

O artigo que se segue é especialmente indicado para os jovens adolescentes que acham que dormir é um desperdício de tempo, não respeitam as horas de sono recomendadas ou, então, têm sérias dificuldades em coordenar as horas de sono, com as horas de estudo e demais tarefas diárias.

Segundo o estudo, a privação de sono "desliga" a região do lóbulo pré-frontal, que normalmente mantém as emoções sob controlo, provocando nos centros emocionais do cérebro uma reacção exagerada a experiências negativas.
O novo estudo da Escola Médica de Harvard e da Universidade da Califórnia, em Berkeley, é o primeiro a explicar ao nível neural o que parece ser um fenómeno universal: que a perda de sono conduz a um comportamento emocional irracional, de acordo com os investigadores.
A descoberta pode também oferecer algumas explicações clínicas para a relação entre as interrupções de sono e alguns problemas psiquiátricos, podendo ajudar com novos mecanismos para tratar estas desordens ao nível cerebral.
"O sono parece restaurar os nossos circuitos emocionais no cérebro e, ao fazer isso, prepara-nos para os desafios e interacção social do dia seguinte", disse Mathew Walker, da Universidade da Califórnia, Berkeley.
"Mais importante, este estudo demonstra o perigo de não dormir o suficiente. A privação de sono quebra os mecanismos do cérebro que regulam os pontos-chave da nossa saúde mental", salienta.
Os cientistas já sabiam que a privação de sono prejudica um enorme conjunto de funções corporais, incluindo o sistema imunitário e de metabolismo e os processos cerebrais de aprendizagem e memória.
No entanto, esta é a primeira vez que se prova o papel do sono no governo do estado emocional do nosso cérebro.
No estudo, a equipa de Walker distribuiu 26 pessoas por um grupo de privação de sono durante 35 horas ou por um grupo em que o sono era permitido normalmente.
No dia seguinte, os cérebros dos participantes foram fotografados por ressonância magnética, processo que mede a actividade cerebral com base na pressão sanguínea, enquanto viam 100 imagens.
Ao princípio, os participantes no estudo encaravam as imagens como emocionalmente neutrais, mas ganharam-lhes cada vez mais aversão com o tempo.
"Prevíamos um potencial aumento de reacção emocional no cérebro com o sono, mas a dimensão do aumento surpreendeu-nos deveras", disse o investigador, referindo que os centros emocionais do cérebro "estavam cerca de 60 por cento mais reactivos debaixo das condições de privação de sono do que em sujeitos que tinham dormido normalmente".
Sem sono, o cérebro reverte até a um mais primitivo padrão de actividade, tornando-se incapaz de contextualizar experiências emocionais e produzir respostas apropriadas e controladas, acrescentam os investigadores.

Público, 23-10-2007

domingo, 30 de outubro de 2011

O psiquiatra e a adolescente: um diálogo exemplar

“A arte de ouvir de Daniel Sampaio” é o título da entrevista conduzida por Analia Santos, aluna da Escola Secundária de Benavente, e coordenada por Bruna Pereira. A entrevista foi publicada, em 3 de Maio de 2010, na revista Forum Estudante e merece uma leitura atenta.

A versão integral desta entrevista encontra-se em
http://www.forum.pt/estudantes/perguntas-tu/1473

«(...)

- É psiquiatra. Como escolheu a sua profissão?
Eu decidi ser psiquiatra por influência de uma professora do Liceu Pedro Nunes, Maria Luísa Guerra, que era professora de Psicologia e de Filosofia e que ainda está viva e com quem ainda hoje converso. Foi ela que me interessou pela Psicologia... Depois os cursos de Psicologia, nessa altura, estamos a falar dos anos 60, ainda estavam pouco desenvolvidos em Portugal e como tinha um pai médico resolvi ir para Psiquiatria, mas fui para Medicina já com a ideia de seguir Psiquiatria, mas poderia ter sido psicólogo também.
- Que conselho dá aos jovens quando se deparam com tantas pressões dos pais, notícias de desemprego, vocação, saídas profissionais…
O primeiro conselho que eu dou às pessoas é, em primeiro lugar, que se imaginem 20 anos depois. Quando a pessoa tem 14 ou 15 anos e tem de começar a fazer escolhas nas áreas do 10º ano deve procura imaginar-se com 35 anos e ver como é que se concebe nessa altura e se sentir um desejo muito forte de ter uma determinada profissão acho que isso é o principal. Acho que não se deve ir para outra coisa ou porque não há emprego, ou porque os pais discordam, ou porque as pessoas acham que não é bom. Acredito mais nisso do que em testes psicológicos ou em outra forma de saber o que é que a pessoa quer fazer.
Depois acho que é bom falar com muita gente - algumas escolas já têm várias profissões que vão lá falar da vida dessas pessoas e eu acho que é útil contactar com muita gente e ver como é que as pessoas vivem a sua profissão
- Acha que os jovens de hoje em dia estão, por assim dizer, mais sujeitos a distúrbios como o bullying, anorexia, problemas relacionados com a sexualidade ou suicídio do que há umas décadas atrás, pela mudança dos tempos, pressão dos colegas, publicidade, internet e meios de comunicação social?
Não, não acho nada disso. As doenças psiquiátricas têm uma prevalência semelhante. A anorexia nervosa, ao contrário do que vem nos jornais, não tem aumentado, continua a ser uma doença rara. Agora há mais casos de bulimia, mas as doenças de comportamento alimentar não têm aumentado significativamente, o mesmo acontece com a esquizofrenia e a doença bipolar, têm-se mantido estáveis. Há é novos problemas e novas maneiras de encarar os problemas. Mesmo o fenómeno do bullying, que agora é muito falado, já existia antes - agora tem novas formas como o bullying através da internet e é estudado de forma diferente e fala-se mais do assunto… Mas não acho que os jovens de hoje tenham mais problemas do que os jovens de há 20 ou 30 anos. Têm, pelo contrário um maior conhecimento das situações, mais informação e têm, muitas vezes, situações diferentes, não quer é dizer que sejam mais graves.
- Também tem filhos. Como podem os pais ou os colegas perceber se algum aluno ou colega está a passar por um distúrbio que possa requerer a ajuda de um profissional?
A primeira coisa é a dificuldade que existe por parte dos adultos, porque muitos adultos não gostam de falar com gente nova: pais, professores… Há muitos adultos que dizem que se interessam muito com os problemas da juventude, mas isso não corresponde a uma prática… É um interesse teórico, porque para se perceber o que se passa com um jovem, uma criança ou um adolescente é preciso falar muitas vezes com ele, mais do que com um adulto, porque o adulto tem mecanismos mais fáceis de dizer aquilo que se passa consigo próprio. Nos adolescentes e nas crianças, muitas vezes, é através de um comportamento que nos faz perceber que a pessoa não está bem - ou porque deixa de comer ou deixa de dormir ou porque toma drogas ou porque tenta o suicídio… Portanto, é preciso estar muito atento aos sinais de alarme, mas para estar muito atento aos sinais de alarme é preciso ter capacidade de ouvir e ouvir através daquilo a que chamamos escuta activa: ouvir o jovem e ir fazendo algumas perguntas para clarificar as respostas. O que é fundamental perceber é se os comportamentos dos jovens são episódicos ou, pelo contrário, são persistentes. Um comportamento desadaptado persistente deve merecer a nossa atenção. Por exemplo, é perfeitamente possível que um jovem tenha uma negativa se ele persistir em ter muitas negativas e reprovar, isso é um comportamento que deve chamar a nossa atenção. Se um jovem falar que se quer suicidar, é um sinal de alarme, mas precisamos de saber a seguir se ele quer manter essa ideia, ou seja, temos de ir acompanhando, falando muito e, sobretudo, ouvindo muito para percebermos o que é que se está a passar e isso às vezes os adultos não têm tempo e eu diria que às vezes também não têm grande capacidade de ouvir. Esse é um dos grandes problemas da relação das pessoas mais velhas com as pessoas mais novas. (...)

- Em relação aos jovens, quais são os casos mais frequentes que lhe aparecem no consultório?
Os casos mais frequentes são os casos de ansiedade e depressão, são as patologias psiquiátricas mais frequentes – são os jovens que têm problemas de ansiedade em relação aos estudos, em relação à família… Em relação ao grupo dos jovens é a depressão, essa sim, agora mais frequente, portanto, há muitos jovens que aparecem com depressão e com ansiedade.
- Qual o caso que mais o marcou?
Há muitos casos que me marcaram. Talvez aquele que me tenha impressionado mais foi uma intervenção domiciliária que nós fizemos num jovem que estava fechado em casa, em que fizemos durante bastante tempo entrevistas com a família em que ele não participava e através de 12 ou 13 idas lá a casa, conseguimos que ele começasse a participar nessas reuniões com a família e hoje em dia tem uma vida normal, o que significa que deu muito trabalho, mas que valeu a pena. Infelizmente não se pode fazer isto para todos os jovens que o necessitariam de fazer, porque isto consumiu muito tempo, mas é uma prova de que não se deve desistir, porque parecia a princípio uma situação que iria terminar num internamento compulsivo – ele ia ser obrigado a ser internado e através desta actividade persistente de idas lá a casa nós conseguimos resolver esta situação de casa e pô-lo na escola.
- Como era o Daniel Sampaio no Ensino Secundário: rebelde, certinho…?
Isso há muitas histórias… Eu nunca fui muito certinho, como estudante do secundário eu era muito contestatário, temos de perceber que estávamos na época de Salazar e eu pertencia a uma coisa chamada Comissão Pró Associação dos Liceus, que era um movimento associativo dos liceus, das escolas secundárias, não era permitido que os estudantes se reunissem e a Comissão Pró Associação dos Liceus era considerada uma estrutura comunista, porque tudo o que era contra o regime era considerado comunista. Eu integrei essa comissão Pró Associação e fiz várias iniciativas, fiz conferências, fiz reuniões… Essa foi uma característica da minha participação no Liceu Pedro Nunes, que era aliás um liceu de elite na altura, onde fui aluno dessa professora Maria Elisa Guerra de que eu falei há bocado, e doutros professores muito bons. Era um liceu de elite, porque havia as escolas industriais e comerciais e eram os meninos com mais posses que iam para o Liceu Pedro Nunes, que era um liceu muito bom, mas que existia num regime autoritário.
Portanto, nós não tínhamos a possibilidade de nos associarmos para rigorosamente nada. Portanto, essa época foi muito de fazer comunicados, fazer textos, tentar fazer conferências, um jornal e guardo muito boas recordações dessa época, porque apesar de ser proibido, tivemos muitos professores que nos apoiaram nessas iniciativas. Foi mais uma vez um exemplo de que vale a pena lutar pelas coisas.»